Silvia Montefoschi. Uma homenagem

di Adriana Tanese Nogueira

Uma grande mulher partiu para o infinito na quarta feira dia 16 de março de 2011 às 11 horas da manhã. Estava, como contam os presentes, serena e alegre. Uma passagem consciente para uma mulher que fez da presença uma forma de ser e de viver, constante, diária, precisamente infinita. Nesse infinito encontrou seu amor, João o Evangelista. Juntos formaram o que podemos certamente chamar o casal mais famoso do mundo psicanalítico.


Nascida em 1926, Silvia estudou medicina e biologia. Aos seus 26 anos, ela começou uma análise com Ernst Bernhard, aluno direto de
Jung. Silvia conta que, ao cruzar a soleira do consultório dele, Bernhard exclamou, “Eis a alma!”


Anos depois, Silvia participou ativamente na criação da primeira associação junguiana italiana, em Milão. A Itália dos anos 60 e 70 era um país rico de experiências sociais, movimentos, protestos, criações culturais alternativas, busca do novo, feminismo, comunismo, católicos progressistas. Desta associação ela mais tarde saiu por intolerância ao dogmatismo que via se fortalecendo. Toda escola se torna dogmática e para Silvia o pensamento segue o processo da vida, e a vida é infinita.
A grande diferença da psicanálise de Silvia é que seu pensamento não está fechado ou altivamente isolado do real, mas em constante relação. Logo, o pensamento para poder acompanhar a vida que flui, que “se dá” (expressão dela) no imediato da experiência individual e social, precisa ser dialético. Não é a realidade que deve enquadrar-se na teoria, mas esta precisa saber mudar tantas vezes quanto necessário para acompanhar o fluxo do ser. Isso é Silvia, e é diferente do que vem antes e depois porque é mulher. Mulher falando não a partir de uma teoria mas da vida que sente falando dentro de si.
Silvia tinha completa consciência disso, aliás, foi através dela que pude focar com clareza esta dimensão. É por ela ser mulher que seu foco não está no pensamento abstrato, mas na realidade concreta. É do feminino sentir e é do ser humano mulher a tarefa de trazer esse sentir do nível inconsciente e não verbal para aquele do conhecimento consciente. Isto se define como: transformar a carne em verbo.
Fantástica Silvia. Foi ela quem disse que o calo do pé tem um significado: deixemo-o falar. Esta postura intelectual representa um tapa na cara das teorias que no afã de serem geometricamente científica acabam por estar “acima” e “além” na “banalidade” da vida. Consequência dessa atitude montefoschiana foir tornar Jung menos simbólico (e enigmático) e mais direto (e com os pés no chão).
Logo, para Silvia, todo a abordagem da anima e do animus precisa ser melhor esclarecida. A anima em Jung é o feminino (quando no homem). É através dela que o homem tem acesso ao inconsciente. Vice-versa, o animus é o portal masculino para o inconsciente na mulher. E onde ficam a mulher concreta com a qual o homem se relaciona? Em Jung, a tradicional distinção de papeis masculino e feminino continua vívida (e dolorida). Baste ver sua relação com Emma, a esposa e mãe, não a interlocutora, não a colaboradora, a aventureira com ele nos abismos do inconsciente. Para esta tarefa, Jung tinha outras mulheres e, como se não bastasse, ainda tinha sua terceira categoria de feminino, aquela reservada à sua própria anima, no segredo de sua solidão. Em seu solilóquio interior, Jung avançou no conhecimento da psique, mas não modificou a estrutura da realidade externa e, mais uma vez, o saber é o resultado do trabalho solitário do homem de sexo masculino consigo mesmo.
Para Silvia, o animus é o masculino na mulher e este é o reflexo do masculino que ela encontra fora de si, ou que deseja encontrar, que ambiciona ter. O companheiro externo só faz sentido quando reflete o masculino interno que a mulher carrega e evolui. Pelo outro, fora de si, o acesso ao inconsciente se faz tanto quanto pelo outro dentro de si. O dialogo que Jung propõe com a anima ou o animus é o mesmo a ser realizado com o outro ou a outra fora de si. Desta forma rompe-se, finalmente, a antiga e desgastante divisão de papeis que vê os homens discutindo importantes assuntos entre si e deixando para fazer com as mulheres as atividades afetivas e sexuais. Como dizia Silvia, o homens amam os homens e transam com as mulheres. Mas não havia nem um pingo de amargura em suas palavras. Somente a observação objetiva e impessoal de um fato.
Amor é muito mais do que transar, amamos o igual a nós. Logo, os homens não amam as mulheres. Não as amam como sujeitos assim como não amam a matéria da qual são feitos seus órgãos e sentimentos. Os homens, historicamente (e aqui estou me referindo ao gênero masculino e não ao Zé da esquina) investiram no pensamento, na cultura, no conhecimento. A matéria e os cuidados materias (incluindo seus próprios corpos) foram relegados às mulheres.
Em Silvia Montefoschi encontrei a mais poderosa valorização do masculino e do feminino ao unisono. Estranhei muito quando cheguei ao Brasil a forma como os junguianos “aplicavam” Jung. Achei-a fraca, emasculada, edulcorada como uma diva de Hollywood usando muita maquiagem para não parecer velha. E se fizerem atenção, o pensamento de Jung, repito, sobretudo no Brasil, desenvolveu-se na linha do feminino (a tal “Grande Mãe”) e da simbologia, bem em sintonia com as características culturais e psicológicas do país. Entretanto, sem um forte masculino capaz de elaborar e unificar esses elementos soltos não há progresso. E aqui estou com os americanos e seu behaviorismo: se não serve para mudar algo fora, é inútil.
O forte masculino é aquele que ama. O forte feminino é aquele que pensa. Ele ama não o pensamento puro (sua viagem nas crenças ou teorias), mas a matéria viva sobre a qual sua vida se rege (seja ela a natureza ou a mulher dos quais serviços sua casa e vida pessoal se favorecem). Ela, por sua vez, pensa não os modelos introjetados de fora, as Barbies da vida que o esquema coletivo lhe impõe e muito menos o contrário disso. Ela pensa a carne que nela fala via sua sintomatologia, sentimentos e intuições. E os dois se encontram não como papeis complementares mas como sujeitos dialogantes.
E da dialética se passa ao dialogo. Dialogo infinito de amor.
Silvia foi muito além e muito mais dessas poucas idéias que aqui apresentei. Minhas palavras não fazem justiça à sua grandeza. Comovida com sua partida, quero deixar registrada minha homenagem e agradecimento. Uma grande mulher passou para outra dimensão.
http://www.psicologiadialetica.com/2011/03/silvia-montefoschi-uma-homenagem.html/


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